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O casamento

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O CASAMENTO
Jorge Rizzini

Quando fez sua primeira conferência espírita, Herculano Pires conheceu em Ipaussu a moça que viria a ser sua esposa.

Maria Virgínia de Anhaia Ferraz tinha a pele morena, os olhos grandes e negros. Era bonita, inteligente e bem falante. Filha de pais espíritas praticantes, assim que completou dez anos de idade passara a lecionar espiritismo às crianças na escola de evangelização do Centro Espírita de Ipaussu, sua cidade natal.

Herculano Pires (o mais alto),  aos quatro anos de idade

Maria Virgínia de Anhaia Ferraz na mocidade

Apresentada, após a conferência, a Herculano Pires, então moço de 22 anos de idade (tinha ela dezoito), conversaram um pouco e separaram-se. Mas, fora o bastante. Guardaram ambos, carinhosamente, a doce impressão de que já se conheciam de outras vidas.

Quando voltariam a encontrar-se?

Se a espiritualidade superior marcara data para o reencontro, nada poderia evitá-lo. Mas... os meses se passavam. O segundo encontro aconteceu em 1938 – dois anos depois. Herculano Pires ia constantemente à cidade de Avaré, rever parentes ou fazer palestras no Centro Espírita “Anjo Guardião” e na Associação Espírita Fé, Esperança e Caridade. Um dia, ao descer do trem na estação de Avaré, pareceu-lhe ver o belo perfil de Virgínia. Aproximou-se, rápido.

– Virgínia!

– Que surpresa! – respondeu ela, risonha, sentindo o coração bater forte.

– Espera alguém ou vai viajar?

– Vou a Ipaussu passar uns dias com a família do dr. Raul Soares. Estou em férias. E você? Veio visitar seus parentes?

Herculano Pires ia responder, mas o trem com destino a Cerqueira César e Ipaussu apitou, e os passageiros, com Virgínia à frente, subiram nos vagões. Herculano Pires fez o mesmo. Ela olhou-o, espantada.

– Aonde vai? Desça, que o trem vai partir.

– Preciso falar com você.

O trem partiu, e Herculano Pires pediu-a em casamento durante a viagem.

– Mas não somos noivos e nem sequer namorados... – disse ela, sem poder esconder a súbita emoção.

– E para quê? – retrucou ele, sorrindo.

Abraçaram-se. Era o dia 25 de junho de 1938. E a data do casamento foi marcada: 11 de dezembro de 1938. Casar-se-iam, pois, dentro de seis meses. Combinaram que o casamento civil seria realizado na casa dela e que, sendo ambos espíritas, não se casariam na Igreja.

– Alguns parentes nos criticarão. Paciência, mas não podemos ceder!

– Sim, não podemos – respondeu ela. – É absurdo um espírita conscientizado casar diante do altar e de um padre.

Mas, naqueles velhos tempos, não era fácil ser espírita. O clero atacava o espiritismo e a sociedade mostrava-se muito preconceituosa. Assim, algumas parentas de Herculano Pires, que diariamente comungavam e iam à missa, ao saber que não haveria cerimônia na Igreja, abandonaram a sala no momento em que o juiz de paz iniciava o ato solene. Essa atitude vexatória, no entanto, não impediu que, após o casamento, houvesse uma grande festa.

Herculano e sua esposa embarcaram nesse mesmo dia para São Paulo, onde passaram parte da lua de mel. Pretendiam, também, passear em Santos, mas, dentro de uma semana seria celebrado o Natal e resolveram regressar a Cerqueira César – não antes de comprarem, com o dinheiro que sobrara, presentes que distribuiriam no Natal às crianças paupérrimas.

Onze meses depois, nascia o primeiro rebento de Virgínia e Herculano: uma linda menina, que ganhou o nome de Helena.

– Por que Helena? – um curioso perguntou ao casal.

– É uma homenagem que presto a Helena Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica – explicou Herculano, sorridente.

Essa justa homenagem é significativa. Deixa em evidência o discernimento de Herculano Pires. Os ensinamentos teosóficos de há muito não mais o satisfaziam, é verdade, mas esse fato não impedia continuasse ele a admirar a inteligência e o idealismo de madame Blavatsky. Sua segunda filha nasceria em Marília e ganharia o nome de Heloisa. A menina seria mais tarde oradora espírita e autora de uma obra carinhosa sobre o seu pai.

A vida jornalística em Cerqueira César continuava difícil. O pai de Herculano Pires já havia vendido a tipografia e liquidado O Porvir. O jornal A Semana, que Herculano lançara e depois transformara em modesta revista, tinha poucos anúncios, e sua venda era apenas razoável. E dava muito trabalho. O próprio Herculano Pires a compunha, imprimia e revisava. No sábado à noite, junto com a esposa, fazia a dobra e, no domingo pela manhã, a distribuição.

As dificuldades econômicas aumentavam. Com esposa e filha, que fazer para ganhar mais dinheiro?

Soube, então, de um concurso para escrivão de coletoria estadual. Fez o exame e ganhou o cargo. Mas, ao fim de um ou dois meses, abandonou-o por detestar os números. Foi quando resolveu mudar-se para uma cidade com maiores possibilidades profissionais.

Marília foi, enfim, a cidade escolhida.

Corria o mês de dezembro de 1940.

 

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