Quando fez sua primeira conferência espírita, Herculano Pires conheceu em Ipaussu a moça que viria a ser sua esposa.
Maria Virgínia de Anhaia Ferraz tinha a pele morena, os olhos grandes e negros. Era bonita, inteligente e bem falante. Filha de pais espíritas praticantes, assim que completou dez anos de idade passara a lecionar espiritismo às crianças na escola de evangelização do Centro Espírita de Ipaussu, sua cidade natal.

Maria Virgínia de Anhaia Ferraz na mocidade
Apresentada, após a conferência, a Herculano Pires, então moço de 22 anos de idade (tinha ela dezoito), conversaram um pouco e separaram-se. Mas, fora o bastante. Guardaram ambos, carinhosamente, a doce impressão de que já se conheciam de outras vidas.
Quando voltariam a encontrar-se?
Se a espiritualidade superior marcara data para o reencontro, nada poderia evitá-lo. Mas... os meses se passavam. O segundo encontro aconteceu em 1938 – dois anos depois. Herculano Pires ia constantemente à cidade de Avaré, rever parentes ou fazer palestras no Centro Espírita “Anjo Guardião” e na Associação Espírita Fé, Esperança e Caridade. Um dia, ao descer do trem na estação de Avaré, pareceu-lhe ver o belo perfil de Virgínia. Aproximou-se, rápido.
– Virgínia!
– Que surpresa! – respondeu ela, risonha, sentindo o coração bater forte.
– Espera alguém ou vai viajar?
– Vou a Ipaussu passar uns dias com a família do dr. Raul Soares. Estou em férias. E você? Veio visitar seus parentes?
Herculano Pires ia responder, mas o trem com destino a Cerqueira César e Ipaussu apitou, e os passageiros, com Virgínia à frente, subiram nos vagões. Herculano Pires fez o mesmo. Ela olhou-o, espantada.
– Aonde vai? Desça, que o trem vai partir.
– Preciso falar com você.
O trem partiu, e Herculano Pires pediu-a em casamento durante a viagem.
– Mas não somos noivos e nem sequer namorados... – disse ela, sem poder esconder a súbita emoção.
– E para quê? – retrucou ele, sorrindo.
Abraçaram-se. Era o dia 25 de junho de 1938. E a data do casamento foi marcada: 11 de dezembro de 1938. Casar-se-iam, pois, dentro de seis meses. Combinaram que o casamento civil seria realizado na casa dela e que, sendo ambos espíritas, não se casariam na Igreja.
– Alguns parentes nos criticarão. Paciência, mas não podemos ceder!
– Sim, não podemos – respondeu ela. – É absurdo um espírita conscientizado casar diante do altar e de um padre.
Mas, naqueles velhos tempos, não era fácil ser espírita. O clero atacava o espiritismo e a sociedade mostrava-se muito preconceituosa. Assim, algumas parentas de Herculano Pires, que diariamente comungavam e iam à missa, ao saber que não haveria cerimônia na Igreja, abandonaram a sala no momento em que o juiz de paz iniciava o ato solene. Essa atitude vexatória, no entanto, não impediu que, após o casamento, houvesse uma grande festa.
Herculano e sua esposa embarcaram nesse mesmo dia para São Paulo, onde passaram parte da lua de mel. Pretendiam, também, passear em Santos, mas, dentro de uma semana seria celebrado o Natal e resolveram regressar a Cerqueira César – não antes de comprarem, com o dinheiro que sobrara, presentes que distribuiriam no Natal às crianças paupérrimas.
Onze meses depois, nascia o primeiro rebento de Virgínia e Herculano: uma linda menina, que ganhou o nome de Helena.
– Por que Helena? – um curioso perguntou ao casal.
– É uma homenagem que presto a Helena Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica – explicou Herculano, sorridente.
Essa justa homenagem é significativa. Deixa em evidência o discernimento de Herculano Pires. Os ensinamentos teosóficos de há muito não mais o satisfaziam, é verdade, mas esse fato não impedia continuasse ele a admirar a inteligência e o idealismo de madame Blavatsky. Sua segunda filha nasceria em Marília e ganharia o nome de Heloisa. A menina seria mais tarde oradora espírita e autora de uma obra carinhosa sobre o seu pai.
A vida jornalística em Cerqueira César continuava difícil. O pai de Herculano Pires já havia vendido a tipografia e liquidado O Porvir. O jornal A Semana, que Herculano lançara e depois transformara em modesta revista, tinha poucos anúncios, e sua venda era apenas razoável. E dava muito trabalho. O próprio Herculano Pires a compunha, imprimia e revisava. No sábado à noite, junto com a esposa, fazia a dobra e, no domingo pela manhã, a distribuição.
As dificuldades econômicas aumentavam. Com esposa e filha, que fazer para ganhar mais dinheiro?
Soube, então, de um concurso para escrivão de coletoria estadual. Fez o exame e ganhou o cargo. Mas, ao fim de um ou dois meses, abandonou-o por detestar os números. Foi quando resolveu mudar-se para uma cidade com maiores possibilidades profissionais.
Marília foi, enfim, a cidade escolhida.
Corria o mês de dezembro de 1940.
O casamento










