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PRODÍGIOS DE UM ADOLESCENTE

Jorge Rizzini

Tornou-se mais amena a vida em Cerqueira César. José Pires Correa conseguira ser nomeado coletor estadual e, algum tempo depois, sem abandonar a coletoria, instalou com seu irmão Ananias, vindo da cidade de Sorocaba, pequena gráfica a que deu o nome de Casa Ipiranga, no fim da rua do Comércio.  E lançou o jornal O Porvir, de cunho político – um semanário em forma de tablóide com circulação aos domingos. Foi o primeiro jornal em Cerqueira César. Sua posição  política era clara: defender os chamados  “cartolas” do Partido Republicano Paulista (PRP) contra os ataques do Partido Democrático. Washington Luís estava então na presidência da República e Júlio Prestes no governo de São Paulo.

É fácil imaginar o que representou a tipografia do pai para Herculano Pires, um garoto dado à leitura, ao sonho e à meditação. Tinha ele apenas treze anos de idade e já com a ponta do destino descoberta, pois com nove anos, apenas, redigira um soneto. Emocionado, demitiu-se da Tipografia Central, na rua Pernambuco, onde trabalhava como aprendiz de tipógrafo, e deixou, temporariamente, seus estudos em escolas oficializadas para se tornar discípulo do erudito professor Pedro Solano de Abreu. E, de janeiro de 1927 a dezembro de 1929 trabalhou com seu pai na Casa Ipiranga, na condição de tipógrafo auxiliar. Curvado sobre as caixas de tipo, o menino compôs com seu tio Titi (Ananias Pires), que era o chefe da oficina, o primeiro número de O Porvir e viu, com grande emoção, o tablóide ser impresso na única máquina ali existente: uma pequenina e antiga, mais ainda eficaz, impressora alemã Bünhaëdsia.

“Eu era ainda um menino, com apenas treze anos – recordaria ele em uma crônica no outono de sua vida –, mas tinha a certeza absoluta de que, naquele momento, em Cerqueira César, iniciava a minha carreira jornalística. Mais ainda: sabia, também, com a mesma certeza inabalável, que começava ali a minha carreira literária. Com o primeiro número de O Porvir nas mãos, saí pela rua de peito enfunado e olhos enublados de sonho.”

E ainda tomado de muita emoção, entrou na loja de  fazendas e miudezas de Nagib Anderaus. E mostrou-lhe o jornal. Nagib, um sírio de cabeça grande, rosto quadrado e olhos azulados, à porta da loja conversava com o padeiro Manoel Cortez e o marceneiro Chiquinho de Almeida. Os três, curiosos, quiseram ver ao mesmo tempo a primeira página, ameaçando rasgá-la.

– Calma – disse o menino. – Só tenho esse exemplar!

E, rindo, pegou o jornal, atravessou a rua e gritou:

– Amanhã vocês já podem comprar O Porvir! Lembrem-se: O Porvir!  É o melhor jornal do Brasil!

Vinha aproximando-se o velho Nhô Quim, com sua carrocinha puxada a burros.

– O que há, Zequita? Por que está agitado, tão nervoso?

– É isto aqui! Veja, Nhô Quim. Acabou de sair do forno...

O velho Nhô Quim pegou das mãos de Herculano o jornal, olhou demoradamente as quatro páginas, sacudiu a cabeça e disse:

– Sim, senhor. Está uma beleza. Esse jornal me dá vontade até de aprender a ler, apesar da idade...

Devolveu o jornal, riu descontraído, deu um tapa na anca dos burros e lá se foi, o bom velhinho, com sua carrocinha entregar mercadorias. Nhô Quim era vizinho dos pais de Herculano e andava muito doente. Quem tratava dele era dona Bonina e o médico Felix Sarmento. Um dia, já sem forças para levantar-se do leito, disse à dona Bonina:

– Venha me ver amanhã, pela manhã, porque morrerei ao meio dia.

Dona Bonina não acreditou, mas obedeceu. Voltou no dia seguinte às 11 horas. Encontrou-o muito mal. Quando o sino da igreja, na esquina, bateu doze horas, Nhô Quim olhou-a, fez-lhe breve aceno e, com um suspiro, desencarnou. Mas, dias depois de enterrado, Nhô Quim foi visto sorrindo nas ruas da cidade ao lado da carroça puxada por burros. O jornalista Antonio Ferreira, muito conhecido em Cerqueira César, e que não era espírita, testemunhou o fato e garantiu que conversou com ele.

 

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