A vida em Marília

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A VIDA EM MARÍLIA
Jorge Rizzini

Nascida em 1925, a cidade de Marília, com menos de quinze anos de vida, tornara-se grande produtora de café, a maior produtora de seda em todo o país e o mais importante município algodoeiro da América do Sul. Notável centro comercial, industrial e agrícola, Marília, quando recebeu Herculano Pires, em 1940, já possuía escola normal, ginásios, escolas de comércio, dezesseis agências bancárias, além de dois importantes jornais diários de grande porte: Correio de Marília e o Diário Paulista. E um movimento espírita muito realizador.

Foi em Marília que a família de Herculano Pires, de súbito, aumentou muito. Porque, com a desencarnação de sua sogra, passaram a viver na casa do apóstolo os seis irmãos de Virgínia: Antônio, Francisco, Maria, Maria de Lourdes, Maria Amélia e João José,1 além do sogro Francisco de Paula Ferraz. Herculano Pires, espírito boníssimo, recebeu-os de braços abertos. E ajudou a educar os menores.

Anotemos, ainda, que o segundo e terceiro filhos de Herculano e Virgínia (Heloisa e Herculaninho) nasceram em Marília, passando, então, a viver na mesma casa, felizes, doze pessoas. Helenilda, a caçula, nasceria em São Paulo. Felizes – não obstante as dificuldades –, porque o almágama que os unia era o amor aliado ao fato de serem espíritas. E (ressaltemos) porque tinha Herculano Pires o mais elevado sentido de família. Nos eventos doutrinários sempre se fazia acompanhar da esposa e filhos. No aniversário de casamento presenteava a esposa com um soneto de amor escrito na véspera.

Conta Heloisa Pires que aos domingos seu pai “levantava cedo e ia à feira comprar rosas e acordava mamãe com a braçada de flores. Virgínia, muito prática, dizia que era tolice, que morreriam logo. Não adiantava, Herculano estava sempre enchendo os vasos com flores. No Natal, cobria a árvore com barras de chocolate e deliciava-se ao ver-nos logo cedo em cândida folia em torno daqueles galhos de chocolate. Jamais deixava de dar presentes, mesmo quando a situação financeira era difícil.”

Em um de seus diários, Herculano Pires, certamente sorrindo, escreveu: “Bem, agora Papai Noel vai trabalhar. É preciso fazer a árvore de Natal frutificar enquanto as crianças estão fora. Às 10:30 nossa árvore deu a sua primeira carga de bombons amarelos e prateados. Milagre de Papai Noel.”

Poeta, nesse mesmo diário fez a seguinte anotação:

“Fui ver as minhas roseirinhas, que estão maravilhosas. Há um botão prestes a abrir-se: rosa vermelha. Todas as manhãs visito essas meninas-vegetais, acompanhando o seu movimento. Em breve estarão na adolescência e encherão de rosas e perfumes a frente de nossa casa.”

Herculano Pires também amava os animais. À guisa de ilustração citemos um fato singelo, mas pitoresco, narrado pela filha Heloisa,2 caso que revela mais uma característica de sua carismática personalidade:

“O mais interessante foi o encontro de Herculano com um sapo; um bicho muito feio e maltratado, cheio de cicatrizes; devia ter servido para experiências. Herculano encontrou-o perto do Hospital São Paulo, na rua Pedro de Toledo, próximo à nossa casa. Trouxe-o embrulhado em um jornal e ficaram muito amigos. Conversava com o sapo, pingava colírio nos olhinhos inchados. Um dia, o sapo sumiu e Herculano ficou preocupado; temia que algum moleque o estivesse magoando.”

Jorge Rizzini conviveu com o apóstolo de Kardec trinta anos. Pode, pois, testemunhar que Herculano Pires tinha o riso fácil, contagiante, gostava de contar e ouvir casos, era simples, acessível a qualquer pessoa do povo. Destituído de vaidade ou orgulho, jamais impôs suas idéias e era dotado de uma virtude rara: nunca mentiu. A serenidade era seu estado normal.

Só uma coisa poderia afetar-lhe a paciência ou causar-lhe até indignação: um líder espírita escrever disparates ou com o comportamento comprometer a Doutrina. Então, o mestre empunhava a pena e, com vigor, punha os pingos nos "is". Mas jamais ultrapassou os limites do cavalheirismo. Assim foram suas críticas e debates, quer pela imprensa, quer através de cartas, com Artur Massena, Edgar Armond, Pereira Guedes, Carlos Imbassahy (pai), Mário Cavalcante de Melo e, entre outros, Divaldo Pereira Franco.

1 João José, irmão mais novo de Virgínia, tinha tenra idade quando passou a viver na casa de Herculano Pires. Tornou-se cronista espírita no jornal paulistano O Tempo. Desencarnou aos vinte anos de idade.

2 Vide Herculano Pires, o homem no mundo, de Heloisa Pires. Edições FEESP, 1992.

 

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