O movimento espírita mariliense regozijou-se ao saber que Herculano Pires fixara residência em Marília, porque já o conhecia através de artigos e palestras.
Acompanhado da esposa, passou Herculano Pires a frequentar o Centro Espírita “Luz e Verdade”, a fim de comentar O evangelho segundo o espiritismo. E, nos demais dias, atendia ele os convites para realizar palestras ou participar de reuniões de estudo das obras de Allan Kardec.
Entre as instituições de Marília, no entanto, uma havia que lhe tocava o sentimento. Não podia haver em toda a Alta Paulista, certamente, centro espirita mais humilde. Herculano Pires gostava de centros espíritas assim, pobrezinhos, porque se assemelhavam aos locais onde se reuniam os antigos cristãos para ouvir a palavra dos apóstolos de Jesus. O centro estava instalado na sala de uma casinha de madeira habitada pelo velho João Barbosa, discípulo de Cairbar Schutel. Deixemos o próprio Herculano Pires, comovido, fazer a evocação:
“A sala era pequena, e os frequentadores se apertavam. Numa noite de calor, pronunciei uma palestra no templozinho humilde. Uma lâmpada acesa sobre as nossas cabeças aumentava a temperatura elevada do ambiente. No auditório exíguo, mas repleto, outra lâmpada fazia o mesmo. Ninguém se retirou, porém, até o fim da reunião. O velho Barbosa a dirigia com a humildade do verdadeiro cristão, iluminado pelos princípios do consolador.”
Quem era João Barbosa, por quem Herculano Pires tinha a maior admiração?
“João Barbosa era trabalhador de enxada. Com mais de setenta anos, continuava na labuta. Partia de madrugada para a roça, e só voltava ao anoitecer. Mas todas as noites lá estava, no seu posto de trabalho evangélico, atendendo ao povo. Sua velha companheira (dona Lazinha) ficara cega, mas Deus lhe abrira os olhos do espírito: era vidente. O que ambos fizeram, durante anos a fio, com sacrifícios incontáveis, só Deus pode saber. Fiel à orientação de Schutel, o velho Barbosa praticava e ensinava um espiritismo límpido, sem misturas, feito de compreensão, amor e caridade. Muito 'doutor' em doutrina, que por ali passava, tinha o que aprender com a humildade daquele apóstolo anônimo.”
Encontro com João Barbosa










