Assim que a família acomodou-se em casa alugada, visitou Herculano Pires o Diário Paulista. A redação e a oficina funcionavam na rua Carlos Gomes, 519. Esse matutino, fundado em 1933, circulava em todas as cidades da vasta região conhecida por Alta Paulista, e a diagramação nada ficava a dever aos melhores jornais da capital. Herculano Pires, já conhecido no meio jornalístico interiorano, foi contratado, embora o Diário Paulista se encontrasse, comercialmente, em situação precária. Ao final do primeiro mês de trabalho, o salário foi pago com atraso. Nos seguintes, com atraso ainda maior. Os funcionários começavam a desesperar-se, e a diretoria deixou transbordar que pretendia vender a empresa jornalística.
Então, Herculano Pires, contando vinte e seis anos de idade, dotado de fé inabalável na espiritualidade e não menor confiança em seu próprio talento, não pensou duas vezes: conseguiu um empréstimo no Banco Comércio e Indústria e comprou o Diário Paulista a prestação. Parecia uma aventura por demais arriscada, mas ele tinha um plano. E adquiriu em São Paulo, também a prestação, um linotipo novo. E trouxe para Marília dois experimentados jornalistas, o Jairo Pinto de Araujo e o Nelson Vainer, que assumiu o cargo de redator – secretário. O jornal, agora modernizado e mais dinâmico, atraiu novos anunciantes. E equilibrou-se.
Era excessivo o trabalho profissional, mas a literatura continuava sendo forte paixão na vida tumultuada de Herculano Pires. E, através das páginas de seu jornal, ativou o movimento literário da Alta Paulista, publicando poesias, contos e artigos de vários autores, entre os quais José Geraldo Vieira, que antes de mudar-se para São Paulo adquirira fama nacional graças ao seu romance A quadragésima porta, Anathol Rosenfeld, que se projetaria depois nos meios culturais de São Paulo, e o baiano Osório Alves de Castro, o qual viveu em Marília até 1964, autor do romance Porto calendário, premiado pela Câmara Brasileira do Livro com o Prêmio Jabuti.
Foi nesse período que Herculano Pires lançou Estradas e ruas, livro de poemas-murais da Alta Paulista, editado em 1943 pela Editora Civilização Brasileira e que mereceu comentários elogiosos do renomado crítico literário Sérgio Milliet e de Érico Veríssimo, então considerado uma das glórias da ficção brasileira. Érico Veríssimo escreveu que os versos de Herculano Pires “são vigorosos e me parecem muito mais cheios de substância do que muita coisa que anda por aí, editada e reeditada”.
Herculano Pires releu o parecer de Veríssimo. E, certamente, deixou ecoar a costumeira risada que o obrigava a fechar um pouco as pálpebras, e que fazia sorrir quem estivesse perto...
Jornalismo e poesia










