A vida em Marília Líderes de Marília e a primeira polêmica pública

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Líderes de Marília e a primeira polêmica pública

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LÍDERES DE MARÍLIA E A PRIMEIRA POLÊMICA PÚBLICA
Jorge Rizzini

Dizia com razão Herculano Pires que "ante os desvios, as deturpações, as confusões que se verificam em outros grandes centros do país, com as traições conscientes e inconscientes à doutrina, como se vêem no Rio e São Paulo, Marília é um contraste de firmeza e dignidade espírita”.

E por quê?

O movimento espírita de Marília foi o primeiro a organizar-se, fez-se coeso, e não esqueceu o estudo metódico da codificação kardeciana. E faça-se justiça! Porque Marília teve a felicidade de possuir alguns homens verdadeiramente notáveis na direção do movimento doutrinário. Homens que vivenciavam os princípios que pregavam. Homens, não duvide, leitor, que por muito amar a doutrina espírita não hesitariam em defendê-la, colocando em risco, se preciso fosse, a própria vida. Assim eram, incluindo o próprio Herculano Pires, Eurípedes Soares da Rocha, Higino Muzzi Filho, Paulo Correia de  Lara, João Barbosa, Gabríel Ferreira, Luís Laraia, Santos Xandó de Araujo e, entre outros, o saudoso médium Urbano de Assis Xavier. Foi com eles que Herculano Pires conviveu durante seis anos consecutivos em Marília.

Para que tenha o leitor ideia da fibra e idealismo desses homens, citemos, como exemplo, Eurípides Soares da Rocha, fundador da cidade de Marília, a quem Herculano Pires chamava de “o patriarca do espiritismo em Marília” e “exemplo de abnegação ao próximo”. Proprietário de inúmeras terras, o generoso Eurípides Soares da Rocha,  quanto mais dinheiro ganhava, mais doações fazia ao movimento espírita da cidade. Ele não somente doava terrenos como edificava ou ajudava a edificar centros, creches, asilos. O hospital espírita de Marília, destinado ao socorro gratuito dos doentes mentais não apenas de Marília, mas de toda a Alta Paulista e que é, no dizer de Herculano Pires, “um grande monumento da caridade cristã”, é obra de Eurípedes Soares da Rocha. Graças ao prestígio de seu nome, a obra recebeu contribuições do povo, comércio, indústria e lavoura, inclusive de cidades vizinhas. Ocupava esse hospital uma área de 48.000 m² e já dispunha no ano de 1947 de acomodações para duzentos internados. Depois tornou-se uma verdadeira cidade hospitalar. Herculano Pires fazia parte da diretoria; tinha o cargo de 2º secretário e Eurípedes Soares da Rocha o de provedor.

Essa foi uma fase dura. Fase de lutas! O hospital ficou gravado para sempre na memória de Herculano Pires devido, também, a uma polêmica que sustentou com o médico Rodrigo Argolo Ferrão, médico-chefe da Casa de Saúde São Luís, o qual combatia pelas páginas do Correio de Marília a iniciativa dos espíritas e reprovava o tratamento espiritual dentro de um hospital psiquiátrico. Herculano Pires respondeu-lhe pelas colunas do Diário Paulista. A polêmica emocionou o público e durou meses. Teve um feliz final na Basserie, bar situado no centro da avenida Sampaio Vidal. Acompanhado de amigos, Herculano e o  dr. Ângelo abraçaram-se e beberam “o café da paz”. Mas o hospital continuou a empregar o tratamento espiritual juntamente com o psiquiátrico... Porque (escreveu Herculano Pires) sabemos que “sem o tratamento adequado, que é o tratamento espírita, esses casos não se resolvem, podendo, às vezes, sofrer passageiros arrefecimentos, mas no geral agravando-se até a completa loucura”.

Esta foi a primeira defesa pública que Herculano Pires fez do inalienável direito do livre exercício da mediunidade. A segunda intervenção (agora em defesa dos postulados do espiritismo), foi devido à publicação do livro Temas espirituais, do respeitado e culto pastor protestante Otoniel Mota, fundador da Associação Evangélica Brasileira, autor de sessenta livros e membro da Academia Paulista de Letras. A defesa de Herculano, sintética e primorosa, brilhante, mesmo, está contida no opúsculo de vinte e uma páginas És mestre... e ignoras estas coisas?, que a Casa Editora “O Clarim” editou em 1946 e que Otoniel Mota recebeu, leu e achou de bom alvitre não responder...

Registremos, ainda, que em novembro de 1941 Herculano Pires fundou a “Mocidade Espírita de  Marília”.

 

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