Dizia com razão Herculano Pires que "ante os desvios, as deturpações, as confusões que se verificam em outros grandes centros do país, com as traições conscientes e inconscientes à doutrina, como se vêem no Rio e São Paulo, Marília é um contraste de firmeza e dignidade espírita”.
E por quê?
O movimento espírita de Marília foi o primeiro a organizar-se, fez-se coeso, e não esqueceu o estudo metódico da codificação kardeciana. E faça-se justiça! Porque Marília teve a felicidade de possuir alguns homens verdadeiramente notáveis na direção do movimento doutrinário. Homens que vivenciavam os princípios que pregavam. Homens, não duvide, leitor, que por muito amar a doutrina espírita não hesitariam em defendê-la, colocando em risco, se preciso fosse, a própria vida. Assim eram, incluindo o próprio Herculano Pires, Eurípedes Soares da Rocha, Higino Muzzi Filho, Paulo Correia de Lara, João Barbosa, Gabríel Ferreira, Luís Laraia, Santos Xandó de Araujo e, entre outros, o saudoso médium Urbano de Assis Xavier. Foi com eles que Herculano Pires conviveu durante seis anos consecutivos em Marília.
Para que tenha o leitor ideia da fibra e idealismo desses homens, citemos, como exemplo, Eurípides Soares da Rocha, fundador da cidade de Marília, a quem Herculano Pires chamava de “o patriarca do espiritismo em Marília” e “exemplo de abnegação ao próximo”. Proprietário de inúmeras terras, o generoso Eurípides Soares da Rocha, quanto mais dinheiro ganhava, mais doações fazia ao movimento espírita da cidade. Ele não somente doava terrenos como edificava ou ajudava a edificar centros, creches, asilos. O hospital espírita de Marília, destinado ao socorro gratuito dos doentes mentais não apenas de Marília, mas de toda a Alta Paulista e que é, no dizer de Herculano Pires, “um grande monumento da caridade cristã”, é obra de Eurípedes Soares da Rocha. Graças ao prestígio de seu nome, a obra recebeu contribuições do povo, comércio, indústria e lavoura, inclusive de cidades vizinhas. Ocupava esse hospital uma área de 48.000 m² e já dispunha no ano de 1947 de acomodações para duzentos internados. Depois tornou-se uma verdadeira cidade hospitalar. Herculano Pires fazia parte da diretoria; tinha o cargo de 2º secretário e Eurípedes Soares da Rocha o de provedor.
Essa foi uma fase dura. Fase de lutas! O hospital ficou gravado para sempre na memória de Herculano Pires devido, também, a uma polêmica que sustentou com o médico Rodrigo Argolo Ferrão, médico-chefe da Casa de Saúde São Luís, o qual combatia pelas páginas do Correio de Marília a iniciativa dos espíritas e reprovava o tratamento espiritual dentro de um hospital psiquiátrico. Herculano Pires respondeu-lhe pelas colunas do Diário Paulista. A polêmica emocionou o público e durou meses. Teve um feliz final na Basserie, bar situado no centro da avenida Sampaio Vidal. Acompanhado de amigos, Herculano e o dr. Ângelo abraçaram-se e beberam “o café da paz”. Mas o hospital continuou a empregar o tratamento espiritual juntamente com o psiquiátrico... Porque (escreveu Herculano Pires) sabemos que “sem o tratamento adequado, que é o tratamento espírita, esses casos não se resolvem, podendo, às vezes, sofrer passageiros arrefecimentos, mas no geral agravando-se até a completa loucura”.
Esta foi a primeira defesa pública que Herculano Pires fez do inalienável direito do livre exercício da mediunidade. A segunda intervenção (agora em defesa dos postulados do espiritismo), foi devido à publicação do livro Temas espirituais, do respeitado e culto pastor protestante Otoniel Mota, fundador da Associação Evangélica Brasileira, autor de sessenta livros e membro da Academia Paulista de Letras. A defesa de Herculano, sintética e primorosa, brilhante, mesmo, está contida no opúsculo de vinte e uma páginas És mestre... e ignoras estas coisas?, que a Casa Editora “O Clarim” editou em 1946 e que Otoniel Mota recebeu, leu e achou de bom alvitre não responder...
Registremos, ainda, que em novembro de 1941 Herculano Pires fundou a “Mocidade Espírita de Marília”.
Líderes de Marília e a primeira polêmica pública










