Em 1971, depois que Chico Xavier brilhou no programa Pinga-Fogo, o jornal Diário de S. Paulo criou a coluna dominical "Chico Xavier pede licença", que logo ficou famosa por divulgar mensagens recebidas pelo médium mineiro, comentadas por J. Herculano Pires, utilizando-se do pseudônimo Irmão Saulo.
Reproduzimos aqui a coluna intitulada Problemas da educação, com uma entrevista com Chico Xavier intitulada Como seres terrenos, a respeito da opinião favorável do espírito Emmanuel ao desenvolvimento da educação espírita. Herculano comenta a entrevista por meio do seu excelente texto A cultura espírita.
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PROBLEMAS DA EDUCAÇÃO
COMO SERES TERRENOS
Francisco Cândido Xavier
Pergunta: O que acha você, Chico, ou Emmanuel, da organização de cursos, até mesmo de escolas de espiritismo de tipo universitário, para o aprofundamento do vários aspectos de doutrina espírita?
Chico Xavier: É outra modalidade de educação. Se pudermos organizar esses cursos com a respeitabilidade precisa, com o espírito de pontualidade nos compromissos assumidos por aqueles que os iniciam, para que a continuidade seja mantida, se encontrarmos esses apóstolos da continuidade para a manutenção dessas bênçãos, devemos começar com essas empresas o mais depressa possível, para a chamada dinamização da ideia espírita e para a intensificação dos valores culturais da nossa doutrina.
Pergunta: Acho que sem uma preparação dos espíritas para enfrentarem essa tarefa, que nos escapa no momento, não poderemos cumprir o nosso dever de espíritas no futuro. Não é?
Chico Xavier: Diz Emmanuel que atravessamos uma fase como essa a que se refere o nosso amigo, em que precisamos encarar esse assunto com espíritos de muito realismo. E para isso devemos esquecer as heranças menos construtivas das religiões tradicionais, que nos alimentaram por muitos séculos, que veneramos muitíssimo, mas que hoje não nos atendem aos impulsos e aos anseios de progresso espiritual. Precisamos considerar, neste caso, o sentido humano da doutrina espírita. Os espíritas não são anjos, nem delinquentes, são criaturas humanas. Os espíritas não estão no céu e também não estão no inferno. Estão na Terra. Somos seres terrenos. Então, como seres terrenos, vamos enfrentar os nossos problemas para resolvê-los – vamos fazer cursos para estudar os assuntos como seres humanos.
A CULTURA ESPÍRITA
Irmão Saulo
Duas coisas ficaram bem claras nesse trecho da entrevista de Chico Xavier: 1) Os cursos de espiritismo são necessários e os cursos de nível universitário devem ser organizados “o mais depressa possível”; 2) A modalidade superior da educação espírita tem por fim a “dinamização da ideia espírita” e a “intensificação dos valores culturais da doutrina”. Essas são afirmações textuais de Emmanuel, como podemos ver acima, feitas através de Chico Xavier.
Esses trechos constam da entrevista gravada com o médium, feita no ano passado, em Uberaba, por ocasião do primeiro aniversário do programa No Limiar do Amanhã. No segundo trecho, que começa assim: “Diz Emmanuel”, o entrevistado teve a confirmação do espírito para a sua tese de que estamos na fase histórica de desenvolvimento da cultura espírita no mundo, sendo necessário que nos interessássemos pela criação de escolas espíritas no nível superior, destinadas a dar aos jovens uma formação espírita em sólidas bases culturais.
Ao referir-se ao sentido humano da doutrina espírita, Chico Xavier fez uma digressão para afirmar a necessidades de encararmos os espíritas, e particularmente os médiuns, os divulgadores e os dirigentes espíritas, como criaturas humanas e não como anjos. Voltando a tratar do problema educacional, ele acentuou de novo esse problema, mostrando que somos "seres terrenos" e precisamos de cursos para estudar a doutrina como “seres terrenos”.
Essas acentuações do problema cultural-espírita em termos esclarecem o erro, engano dos que pretendem manter a educação espírita apenas em termos espirituais, como se não estivéssemos encarnados na Terra e não tivéssemos a obrigação de absorver a cultura do mundo juntamente com a cultura espírita, para que esta ilumine e amplie as dimensões daquela.
O espiritismo não pode ser encarado como uma doutrina divina, desligada do contexto cultural terreno. Essa a razão porque “devemos esquecer as heranças menos construtivas das religiões tradicionais”, pois que elas estabeleceram uma divisão prejudicial entre a cultura religiosa e a cultura mundana. O espiritismo não é apenas uma revelação espiritual, como esclareceu Kardec, mas uma dupla revelação, divina e humana, que se entrosa num processo histórico único e representa um momento de síntese da evolução cultural do homem.
Uma escola de espiritismo de nível universitário estabelece a fusão entre o saber humano e o saber que a ciência do espírito nos proporciona através do espiritismo. Por outro lado, essa escola superior, que se constitui de cursos regulares para a formação do “novo homem”, não pode funcionar de maneira aleatória, sujeita à disponibilidade eventual de professores diletantes, mas necessita de um corpo docente organizado em bases profissionais, da mesma forma que um hospital espírita precisa contar com serviços de médicos e enfermeiros profissionais, sob pena de não atingir a sua finalidade. Daí a afirmação de Emmauel de que “precisamos encarar esse assunto com espírito de muito realismo”.
Problemas da educação










