No Espiritismo, o conceito teológico de demônios é tido como incorreto. A idéia de seres totalmente devotados ao mal, que vem desde tempos antigos da humanidade, parte do princípio da existência dos opostos: se há um bem, há analogamente um mal. Tal princípio é tido por muitos como perfeitamente lógico. Muitos mesmo pensam: se há Deus, o Ser que é a bondade suprema, então existe Satã, um ser que é o mal supremo.
A existência de tais seres, eternamente devotados ao mal, vai contra toda a lógica. Partindo-se do ponto que tudo o que existe no universo é uma criação de Deus, como conceber que um Ser reconhecido por Sua infinita misericórdia pudesse criar outros cujo dever, por toda a eternidade, fosse a prática do mal?
Em diversas doutrinas cristãs os demônios seriam na verdade anjos que se rebelaram contra Deus, sendo então banidos de forma irrevogável. Desse modo, não foram criados seres eternamente devotados ao mal, mas sim o livre-arbítrio causou esse desvio de caminho. Mas se admitimos que os anjos são seres à parte da criação; criados já perfeitos tais quais espíritos sublimes, cheios da graça de Deus, como poderiam rebelar-se contra Ele? Pensemos: como, tendo o conhecimento de Deus, uma vez que estavam na Sua presença, e sendo ainda sublimes, cometem o erro crasso de fazer a escolha pelo mal? Perde-se o sentido, perde-se a perfeição admitida anteriormente.
Admite-se então que Deus, em Sua intenção, procurou criar seres perfeitos, mas alguns deles, obviamente, não chegaram a esse ponto. Nesse caso forçoso é colocarmos que Deus se enganou, não sendo, portanto, infalível; não sendo então Deus, pelo conceito que temos Dele.
Contraria mais ainda esse conceito que temos de Deus o fato de que, ao criar os anjos, Ele sabia, pois é onisciente, que alguns viriam a falir, estando eternamente devotados ao mal e, ainda pior, tentando levar outra parte da criação – os seres humanos – a esse mal e sofrimento. Ou seja, de forma deliberada um Ser, que é a perfeição de todas as virtudes, pode criar seres devotados ao mal e causadores de sofrimentos à Sua criação por toda a eternidade? Onde fica aqui a bondade infinita? Se reconhecemos que pecamos pelo bem que deixamos de fazer quando temos a oportunidade, quanto mais seria inadmissível isso em Deus!?
Considerando-se que os anjos pensam, têm em si a faculdade do discernimento das coisas; e teriam em alto grau, uma vez que foram criados sublimes. Sendo assim, poderiam algum dia procurar o arrependimento, afinal, a eternidade no sofrimento não os agradaria de forma alguma. No entanto, não dando Deus a oportunidade da remissão a esses anjos caídos, uma vez que a punição é irrevogável, não haveria para eles motivo algum para uma tentativa de retorno ao bem, já que eles têm o conhecimento do caráter eterno da punição. Junta-se agora à incoerência citada no parágrafo anterior o fato de que Deus, além de criar tais seres de forma deliberada, não permite ainda que sequer tentem ser bons novamente, servindo-O. Isso tudo é condizente com um Ser que, por definição, possui uma bondade infinita?
No entanto, se admitimos que os anjos não foram criados perfeitos, sendo falíveis, e que, ocorrendo em erro, teriam a chance de voltar ao bem, não sendo banidos irrevogavelmente, aí não encontraríamos insulto algum aos atributos de Deus. Ele lhes daria o livre-arbítrio; estes assumiriam as conseqüências de seus atos, sendo bons ou ruins, tendo sempre a chance do toque do perdão Divino (a infinita misericórdia).
Resta ainda outro ponto interessante: admitimos, mesmo na justiça humana, alguém que, sendo o agente provocador do erro em outra pessoa, seja também o agente da punição desse erro? Não, o agente provocador é o mais culpado! Não teria ele, de forma alguma, o direito de punir aquele ao qual incentivou o erro, dando-lhe todas as oportunidades de cometê-lo.
Pensemos bem, não admitimos tal absurda idéia mesmo na moralidade de uma justiça humana. Por quê então admitimos tal fato na Justiça Divina!? Não deveria ela ser a expressão absoluta da perfeição? Ainda mais se tratando de questões envolvendo a eternidade sem remissão?
Quanto mais se dá o aprofundamento na questão mais incoerências surgem. Se algo há que contraria os atributos Divinos, não pode de forma alguma ser verdadeiro.
Pelo Espiritismo, os demônios não são seres devotados eternamente ao mal. São espíritos ignorantes que se encontram nesse estado, mas têm todas as chances de recuperação. São espíritos que viveram encarnados e ainda viverão novamente, em suas oportunidades de aperfeiçoamento concedidas por Deus através da reencarnação.
A própria origem da palavra demônio - do grego daïmon - discorda dessa definição de seres devotados ao mal. O original grego significa gênio, inteligência, aplicando-se a seres incorpóreos, bons ou maus, indistintamente, que estariam colocados entre o princípio divino e os mortais, servindo de intermediários entre eles. Modernamente é que a palavra adquiriu sua diferente conotação.
Onde há nesse pensamento uma incoerência, por ínfima que seja, ou uma negação qualquer aos atributos Divinos?
Querendo-se, pode-se chamá-los ainda de demônios, porque há os que se encontram em estado animalizante de bestialidade, em sua profunda ignorância, que são capazes das maiores imoralidades. Se o Espiritismo não adota esse nome, é porque com ele vem a idéia de seres à parte da criação, votados eternamente ao mal e incapazes de progredirem no bem. Essa idéia de criações distintas por parte de Deus: uns feitos desde o início sublimes, dotados de felicidade perfeita; outros criados ignorantes, destinados a um certo período de sofrimento e penúria para então, talvez, atingirem tal felicidade perfeita, não existe no Espiritismo.
Todos foram criados iguais, sem espécie alguma de parcialidade ou favorecimento de uns em detrimento de outros, o que, obviamente, contrariaria novamente o senso-comum humano de justiça. E, com o perdão da redundância, se contraria de forma óbvia e imediata a moral da justiça humana, como admiti-la existir na justiça Divina, a perfeita?
Doutrinas e pensamentos antigos diversos existem que contrariam em vários pontos a natureza Divina desse Ser único e supremo que, sabemos, é a causa primária de todas as coisas. Por quê existem? A resposta encontra-se na idéia que os povos fizeram de Deus ao longo dos tempos. Na Bíblia temos uma noção de alguns pensamentos que os hebreus possuíam sobre Ele no início: um Deus colérico, que se arrepende das coisas que fez (Gênesis, 6: 6-7 e Amós, 7:6 - para citar apenas duas passagens), que se concentra mais em punir cruelmente aquele que praticou um grande mal quando encarnado do que em lhe proporcionar uma oportunidade de regeneração e volta ao bem.
A questão é que, há cerca de 2000 anos atrás, esse Deus “colérico e vingativo” enviou alguém que fez justiça ao Seu nome, ensinando a todos a Sua verdadeira condição de Pai amoroso: Jesus Cristo. Outra interrogação surge agora: quando a humanidade se libertará completamente da idéia arcaica de Deus, louvando-lhe então Suas perfeições infinitas em não admitindo nada que as contrarie? |