"Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão em todas as épocas da Humanidade" - Allan Kardec.
"O homem que apenas crê e não procura refletir esquece-se de que é alguém constantemente exposto à dúvida, seu mais íntimo inimigo, pois onde a fé cega domina, ali também a dúvida está sempre à espreita. Para o homem que pensa, porém, a dúvida é sempre bem recebida, pois ela lhe serve de preciosíssimo degrau para um conhecimento mais perfeito e mais seguro" - palavras de Jung.
Como disse Paulo: “a letra mata e o espírito vivifica”. Por muito tempo, várias alegorias bíblicas - para nos atermos ao âmbito das religiões cristãs - foram tomadas de forma literal por estudiosos e teólogos. Na verdade, ainda hoje muitos assim o fazem. Mas o que dizer quando isso simplesmente vai contra o bom-senso, o raciocínio lógico ou a ciência comprovada? A capacidade de raciocínio é um atributo nos concedido por Deus que deve sempre ser utilizado. Ao homem Deus deu a capacidade de discernimento não para acreditar de forma cega em tudo o que lhe é dito, mas sim para examinar e perceber o erro ou a verdade contida nas palavras que lhe chegam.
Trechos da Revista Espírita de março de 1860:
“A questão do primeiro homem na pessoa de Adão, como única fonte da Humanidade, não é a única sobre a qual as crenças religiosas deverão se modificar. O movimento da Terra, numa certa época, pareceu de tal modo oposto ao texto das Escrituras, que foi motivo de perseguições das quais essa teoria não foi o pretexto, e, todavia, vê-se que, Josué detendo o Sol não pôde impedir a Terra de girar; ela gira apesar dos anátemas, e hoje ninguém poderia contestá-lo sem prejuízo de sua própria razão”.
"A Bíblia diz igualmente que o mundo foi criado em seis dias, e fixa-lhe a época em torno de 4 mil anos antes da era cristã. Antes disso, a Terra não existia, ela foi tirada do nada: o texto é formal; e eis que a ciência positiva, inexorável, vem provar o contrário. A formação do globo está escrita em caracteres imprescritíveis do mundo fóssil, e está provado que os seis dias da criação são igualmente de períodos cada um, talvez, de várias centenas de milhares de anos. Isto não é um sistema, uma doutrina, uma opinião isolada, é um fato tão constante quanto o movimento da Terra, e que a teologia não pode se recusar em admitir. (...) A autoridade da Bíblia recebeu um insulto aos olhos dos teólogos? De nenhum modo, eles se renderam à evidência, e disto concluíram que o texto podia receber uma interpretação”.
"Admitindo que o homem (Adão) apareceu pela primeira vez na Terra quatro mil anos antes de Cristo, se 1650 mais tarde toda a raça humana foi destruída (dilúvio), disso resulta que o povoamento da Terra não data senão de Noé, quer dizer, de 2350 anos antes de nossa era. Ora, quando os hebreus emigraram para o Egito, no décimo oitavo século, encontraram este país muito povoado e já muito avançado em civilização. (...) A história prova que, nessa época, as Índias e outros países estavam igualmente florescentes. Seria necessário, pois, que do décimo quarto ao décimo oitavo século, quer dizer, no espaço de 600 anos, (...) a posteridade de um único homem pôde povoar todos os imensos continentes então conhecidos, supondo que os outros não o fossem”. (Em itálico, inserções do site.)
"Que teria acontecido à religião se ela se obstinasse contra a evidência, e se persistisse em cunhar de anátema quem não aceitasse a letra das Escrituras; disso resultaria que não poderia ser católico sem crer-se no movimento do Sol, nos seis dias, nos 6.000 anos da existência da Terra; contai, pois, o que restaria hoje de católicos. Proscrevei também aquele que não se prende à letra, à alegoria da árvore e de seu fruto, da costela de Adão, da serpente, etc”?
"As idéias religiosas, longe de perderem, se engrandecem caminhando como a ciência; é o meio de não dar ensejo ao ceticismo em demonstrando um lado vulnerável.”
Num dia, se critica e ataca; no outro, rende-se à evidência e os dogmas mais absurdos das mais diversas religiões caem por terra, pois "fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade". |