Como o próprio Allan Kardec coloca em O Que É o Espiritismo, ele não tem o mérito de invenção de um único princípio sequer da doutrina espírita. Todos os ensinamentos vieram dos espíritos, por meio de várias comunicações, de várias maneiras e ocorridas em diversos lugares, além de, é claro, através de vários médiuns. Diz-se que Kardec foi o codificador da doutrina espírita; seu trabalho se constituiu em analisar um grande número de comunicações e ensinamentos recebidos; estudá-las metodicamente; compará-las; ver-lhes o bom-senso e a razão passíveis de conter em si e se concordavam em geral com outros ensinamentos vindos de comunicações recebidas por diferentes médiuns. Ele reunia e organizava tudo o que era passado pelos espíritos. O que era concordante em várias comunicações vindas de diversos médiuns, perfeitamente racional e dentro do bom-senso, passava a ser considerado um princípio da doutrina espírita.
Seu nobre trabalho e esforço possibilitaram a organização de um corpo – bastante sólido por sinal – ao Espiritismo. Sua dedicação legou a todos a base da doutrina espírita nos seguintes livros: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, A Gênese e O Céu e o Inferno. Contudo, não foi ele o criador, mas sim o codificador da doutrina.
Suas próprias palavras – trecho de A Gênese - explicam bem o que foi colocado acima: “o nosso papel pessoal, no grande movimento de idéias que se prepara pelo Espiritismo e que começa a operar-se, é o de um observador atento, que estuda os fatos para lhes descobrir a causa e tirar-lhes as conseqüências. Confrontamos todos os que nos têm sido possível reunir, comparamos e comentamos as instruções dadas pelos Espíritos em todos os pontos do globo e depois coordenamos metodicamente o conjunto; em suma, estudamos e demos ao público o fruto das nossas indagações, sem atribuirmos aos nossos trabalhos valor maior do que o de uma obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem nunca nos considerarmos chefe da doutrina, nem procurarmos impor as nossas idéias a quem quer que seja. Publicando-as, usamos de um direito comum e aqueles que as aceitaram o fizeram livremente. Se essas idéias acharam numerosas simpatias, é porque tiveram a vantagem de corresponder às aspirações de avultado número de criaturas, mas disso não colhemos vaidade alguma, dado que a sua origem não nos pertence. O nosso maior mérito é a perseverança e a dedicação à causa que abraçamos. Em tudo isso, fizemos o que outro qualquer poderia ter feito como nós, razão pela qual nunca tivemos a pretensão de nos julgarmos profeta ou messias, nem, ainda menos, de nos apresentarmos como tal.” |