O Espiritismo surgiu em meados do século XIX, na França, tendo como “marco inicial”, por assim dizer, a codificação de "O Livro dos Espíritos", por Allan Kardec, em 1857. É importante dizer que os termos espírita e espiritismo foram criados por Kardec para dar nome a tudo o que estava surgindo naquele momento, sendo errado entender, por Espiritismo, qualquer culto ou religião onde há a mediunidade e a crença na reencarnação. Por esse motivo ouve-se muito os termos "espiritismo kardecista", "espiritismo de mesa branca", “baixo e alto espiritismo”, quando na verdade, o Espiritismo real é apenas um e é aquele que encerra toda a doutrina espírita, cuja base são os cinco principais livros deixados por Kardec, a saber: O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), A Gênese (1868), O Céu e o Inferno (1865) e O Livro dos Médiuns (1861), além, é claro, do Livro dos Espíritos.
O Espiritismo traz em si três faces: a religião, a filosofia e a ciência. Um pensamento de Chico Xavier elucida bem isso: "poderíamos figurar, por exemplo, a ciência como sendo a verdade, a religião, como sendo a vida e a filosofia como sendo a indagação da criatura humana entre a verdade e a vida. Todos os três aspectos são muito importantes, porque a filosofia estuda sempre, a ciência descobre sempre, mas a vida atua sempre. Todos esses aspectos são essenciais, mas a religião é sempre a mais importante, porque a verdade é uma luz a que todos chegaremos, a indagação é um processo do que todos participamos, mas a vida não deve ser sacrificada nunca e a religião assegura a vida, assegurando a ordem da vida".
Chico Xavier corrobora ainda essa visão em um trecho do livro Momentos com Chico, de Adelino da Silveira.
Contudo, alguns espíritas preferem não ver o Espiritismo como religião. O próprio Allan Kardec, em certo momento, definiu o Espiritismo como uma ciência e uma filosofia (no livro O Que É o Espiritismo), não tendo caráter religioso, apesar de sua filosofia levar a considerações de ordem religiosa. Temos aqui algo como a idéia de Deus, iniciando a religião; a indagação prenunciando a filosofia e a experimentação anunciando a ciência. Não mais a fé cega, mas o saber racional, vindo da experimentação e observação; a prova material que não mais cria céticos. No entanto, essas considerações de Kardec se faziam mais no sentido de não colocar o Espiritismo no grupo das religiões dogmáticas existentes na época (e ainda hoje, claro). Diante de tantos abusos e explorações já feitas pelo homem em nome de suas várias religiões na história, ele preferiu diferenciar o Espiritismo disso tudo, para que a doutrina não fosse apenas mais uma repetição da intolerância e abuso humanos. Em seu último discurso, proferido em primeiro de novembro de 1868, Kardec explica bem isso:
“Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza.
"Por que, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública.
"Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral".
Concluindo, vê-se que, nesse ponto, tudo depende do pensamento de cada um, pois se considerarmos religião como algo que necessariamente incorpore rituais, dogmas variados, sacramentos, hierarquias sacerdotais, uso de vestimentas especiais, objetos santos ou sagrados e cultos ou práticas exteriores, então o Espiritismo não é uma religião, já que nada disso possui. Mas se considerarmos religião como algo que seja um elo de ligação entre o homem e Deus (lembrando que esse é o significado original da palavra religião; do latim: religare), algo que seja uma fonte de caminhos ao homem para a sua busca ao Ser superior, nada tendo em importância a forma, mas sim o conteúdo (pensamento), então o Espiritismo é sim uma religião. Para que haja um elo forte entre o homem e Deus não são necessárias atitudes exteriores, importando tão somente o que está guardado dentro do coração de cada um, pois é isso o que Deus realmente vê e considera.
De forma objetiva, sete são os princípios básicos do Espiritismo:
1) Deus existe, e Ele é a causa primária de todas as coisas;
2) a existência do espírito e sua sobrevivência após a morte;
3) a reencarnação;
4) a lei de causa e efeito;
5) a comunicação entre o mundo material e o mundo espiritual;
6) a evolução progressiva dos espíritos;
7) a prática da caridade.
Tais princípios são melhor elucidados em: quais são as bases da doutrina espírita? |