"Há verdadeiramente duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber; em crer que se sabe reside a ignorância."
Hipócrates
 
 
Home
Conhecendo o Espiritismo Artigos Livros Downloads Preces Mensagens Frases para Reflexão
  Links Pesquisa no Site Mapa do Site Contato

Argumentos a favor da eternidade das penas X refutação
 



No texto O inferno e a eternidade das penas encontra-se a posição do Espiritismo sobre esse tema; mas há ainda alguns argumentos que são usados para explicar a razão de ser das penas eternas - os quais serão aqui expostos e refutados - que talvez, para alguns leitores, possam não ter sido totalmente esclarecidos no texto acima citado.

“Está admitido, entre os homens, que a gravidade da ofensa é proporcional à qualidade do ofendido. Aquela que é cometida contra um soberano, sendo considerada como mais grave do que aquela que não concerne senão a um simples súdito, é punida mais severamente. Ora, Deus é mais do que um soberano; uma vez que é infinito, a ofensa contra ele é infinita, e deve ter um castigo infinito, quer dizer, eterno.”

A refutação desse argumento vem do entendimento que a doutrina espírita traz de Deus: Ele é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições.
Apenas um ser infinito pode fazer alguma coisa infinita. O homem, estando limitado em suas virtudes, em seus conhecimentos, em seu poder, em suas aptidões, na sua existência terrestre, não pode produzir senão coisas limitadas. Se o homem pudesse ser infinito naquilo que faz de mal, o seria igualmente naquilo que faz de bem, e então seria igual a Deus.

Se jogarmos uma pedra – a maior que conseguirmos erguer com nossas próprias mãos – no oceano, conseguiremos ofender a imensidão de suas águas com isso? Não, a vastidão dos mares de forma alguma será perturbada, ofendida ou afetada. Basta agora vermos que estamos, em nossa pequenez, muito mais distantes da imensidão suprema de Deus do que a pedra está em relação ao oceano e chegaremos à conclusão de que um homem deve estar tentando se colocar no centro do universo ao afirmar que consegue cometer um ato que ofenda Deus. Muito pelo contrário, o maior ofendido é o próprio homem!

O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de uma qualidade contrária que a diminua ou a anule. Assim, um ser infinitamente bom não pode ter a menor parcela de maldade, nem um ser infinitamente mau ter a menor parcela de bondade, bem como uma tinta infinitamente preta não pode ter a menor parcela de branco e vice-versa. Por quê Deus faria para o homem uma lei do perdão se Ele mesmo não devesse perdoar? Disso resultaria que o homem que perdoa os seus inimigos e lhe faz o bem pelo mal seria melhor do que Deus, que permanece surdo ao arrependimento daquele que O "ofendeu", e lhe recusa, pela eternidade, o mais ligeiro alívio.

Lucas, 17: 3-4
Tende cuidado de vós mesmos; se teu irmão pecar, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-lhe. Mesmo se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes vier ter contigo, dizendo: arrependo-me; tu lhe perdoarás.


Acima, palavras do próprio Cristo. Aos homens ele ensinaria fazer algo bom que nem mesmo Deus faz? Deus tudo vê; se é insensível aos gemidos e arrependimentos de um espírito durante a eternidade, é eternamente sem piedade; se não tem piedade, não é infinitamente misericordioso e bom.

Salmos, 103:8-9
Compassivo e misericordioso é o Senhor; tardio em irar-se e grande em benignidade. Não repreenderá perpetuamente, nem para sempre conservará a sua ira.

“Mas o pecador que se arrepender antes de morrer, experimenta a misericórdia de Deus, e então, o maior culpado pode encontrar graça diante Dele.”


Isso não se coloca em dúvida. Mas se Ele é cheio de misericórdia com a alma que se arrepende antes de ter deixado o seu corpo, por que cessaria de sê-lo para aquela que se arrepende depois da morte? Se a bondade e a misericórdia de Deus estão circunscritas em um tempo dado, elas não são infinitas e Deus não é infinitamente bom.
Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é aquela mais inexorável, nem a que deixa toda falta impune; é aquela que tem a conta, a mais rigorosa, do bem e do mal; que recompensa um e pune o outro na mais equânime proporção, e nunca se engana. Se o culpado retorna a Deus, se arrepende e pede para reparar o mal que fez, é um retorno ao bem. Se o castigo é irrevogável, esse retorno ao bem não tem fruto; uma vez que não se levou em conta o bem, não há justiça. Entre os homens, o condenado que se emenda vê a sua pena comutada, às vezes mesmo suprimida; haveria, pois, na justiça humana, mais eqüidade do que na justiça divina.

“Mas a escolha cabe a cada ser humano, uma vez que Deus concede o livre-arbítrio.”

Sendo infinito em seus atributos, Deus deve tudo conhecer, o passado e o futuro, deve saber, no momento da criação de uma alma, se ela falirá, assaz gravemente, para ser condenada pela eternidade. Se não sabe, seu saber não é infinito, e então não é Deus. Se o sabe, cria voluntariamente um ser destinado, desde a sua formação, às torturas sem fim, e, então, não é bom. Aqui Deus pecaria pelo bem que deixaria de fazer ao criar tal alma. Ele, em Sua posição de superioridade intelectual e moral, não poderia se reservar ao dever de cumprir uma boa ação tendo a oportunidade. Uma vez que reconhecemos tal atitude como uma falta se praticada por um homem, o que diríamos se praticada por Deus?

“A recompensa concedida aos bons, sendo eterna, deve ter por contrapartida, uma punição eterna. É justo proporcionar a punição à recompensa.”

Pensando assim misturamos extraordinariamente as coisas. Seria como chegar-se à conclusão que o diabo existe porque Deus existe. Onde está o bom-senso? Deus cria a alma tendo em vista torná-la feliz ou infeliz? Evidentemente, a felicidade da criatura deve ser o objetivo da sua criação, de outro modo Deus não seria infinitamente bom. Ela alcança a felicidade por seu próprio mérito, pelo esforço que faz em se depurar moralmente; adquirindo o mérito, não pode perder-lhe o fruto, de outro modo degeneraria. A eternidade da felicidade é, pois, a conseqüência da sua imortalidade. Se uma alma culpada se arrepende, pode tornar-se boa; podendo tornar-se boa, pode aspirar à felicidade; Deus seria justo de, para isso, recusar-lhe os meios?

“O temor de um castigo eterno é um freio; se fosse tirado, o homem, não temendo nada mais, entregar-se-ia a todos os desregramentos.”


Esse raciocínio seria justo se a não eternidade das penas ocasionasse a supressão de toda sanção penal. Por não ser eterno, o castigo não é menos penoso. Teme-se o castigo quanto mais nele se crê, e nele se crê quanto mais seja racional. A crença é um ato de entendimento, e, por isso, não pode ser imposta. Se, durante certo período da humanidade, o dogma da eternidade das penas pôde ser salutar, chega um momento onde se torna perigoso, uma vez que o homem chega a um estado de compreensão da força moral; tal qual a criança que se contém, durante um tempo, pela ameaça de seres quiméricos, com a ajuda dos quais se assusta, mas, quando cresce, por si mesma faz
justiça aos contos com os quais foi embalada, sendo absurdo continuar vendo-os pelos mesmos meios.

“Tudo bem, mas e a Bíblia? As penas eternas estão lá descritas!”

Realmente se fala na Bíblia do “fogo eterno” em diversos versículos: Mateus, 18:8-9; Mateus, 25:41; Judas, 1:7; Mateus, 25:46; e outros. Por muito tempo o inferno fora pintado materialmente com tais características; seus caldeirões de fogo e rios de enxofre e as almas sendo jogadas nos mesmos. O homem evoluiu, percebeu a figuração das palavras da Bíblia e hoje já admite que o inferno não seja esse lugar restrito cheio de fogo para queimar as almas. É sim um estado de sofrimento do espírito, sendo que o fogo fora utilizado à época para designar o quão penosos seriam tais sofrimentos. Pois bem, uma parte hoje já tem seu sentido alegórico compreendido; falta ainda a outra. Mas se o fogo não deve ser tomado de forma literal, por quê deve assim ser considerado o eterno? Por eterno não podemos entender um período grande e/ou indeterminado de tempo? Sempre usamos palavras desse modo para passar uma idéia de forma mais efetiva, como quando dizemos: “esperei uma eternidade na fila do banco”. Por quê a dificuldade em se admitir que tal sentido fora empregado na Bíblia? Não é esse um dos livros mais ricos em alegorias da humanidade? Não temos vários versículos que usam o termo “de eternidade a eternidade” ou “de eternidade em eternidade” (I Crônicas, 16:36; I Crônicas, 29:10; Neemias, 9:5; Salmos, 41:13; Salmos, 90:2; Salmos, 103:17; Salmos, 106:48)? Ora, tomemos isso literalmente e nenhum sentido existirá.

As descobertas da ciência obrigaram o homem a buscar novas interpretações de várias passagens bíblicas, que tinham seu sentido tomado de forma literal. Aquele que continuasse a dizer que o Sol é que se movimenta em torno da Terra ficaria sozinho no estado ridículo de tal afirmação atualmente.
Os “problemas” começaram quando o homem descobriu, de forma científica, que a Terra é que girava em torno do Sol; que o planeta não fora criado do nada em seis dias e há apenas alguns poucos milhares de anos atrás; que seria impossível toda a humanidade ter surgido tão somente a partir de Adão e Eva, e ainda, ressurgido depois do dilúvio em um período de cerca de 600 anos, já constituindo-se a civilização egípcia e tendo sido povoados os grandes continentes até então conhecidos.
Pergunta-se: com isso o homem negou a Bíblia? Não, de forma alguma. Ele buscou o verdadeiro sentido de certas passagens, admitindo o seu erro nas interpretações anteriores que fazia da mesma.

Comparemos a idéia que se tinha de Deus à época do antigo testamento - um Deus carrasco, que se arrepende das coisas que fez (Gênesis, 6:6-7; Êxodo, 32:14; Jonas, 3:10; I Samuel, 15:35), que luta com Jacó e perde (Gênesis, 32:28-30) - com a que temos hoje e veremos quanta diferença; não porque Deus mudou, pois sendo perfeito é imutável; mas sim o homem evoluiu em seu entendimento, devendo, aliás, muito disso a Jesus Cristo.

As idéias seguem um curso incessantemente progressivo; não se pode governar os homens senão seguindo esse curso; querer detê-lo ou fazê-lo retroceder, ou simplesmente permanecer atrasado, quando ele avança, é perder-se. Seguir ou não seguir esse movimento é uma questão de vida ou morte, para as religiões assim como para os governantes. Contra as leis de Deus, toda resistência é inútil; lutar contra a Sua vontade é querer se destruir.

 

A maior parte deste texto foi extraída do livro O Céu e o Inferno.

 
     
Download
Ajuda?
 
  Site Saber Espírita - 2005