"Algum dia, quando tivermos dominado os ventos, as ondas, as marés e a gravidade... utilizaremos as energias do amor. Então, pela segunda na história do mundo, o homem descobrirá o fogo."
Teilhard Chardin
 
 
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Quem é Deus?
   



Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Para compreendê-Lo nos falta, ainda, o sentido que não se adquire senão pela completa depuração do espírito. O homem pode, pelo raciocínio, chegar ao conhecimento dos seus atributos necessários; porque, em vendo o que Deus não pode deixar, sem cessar, de ser, disso conclui o que deve ser.
O conhecimento dos atributos divinos é o ponto de partida de todas as crenças religiosas, e foi pela falta de a eles se referirem, que a maioria das religiões errou em seus dogmas. As que não Lhe atribuíram a onipotência, imaginaram vários deuses; as que não Lhe atribuíram a soberana bondade, dele fizeram um deus ciumento, parcial e vingativo.

Vejamos então atributos sem os quais Deus não poderia ser Deus:

•  Deus é a suprema e soberana inteligência.
A inteligência de Deus, abarcando o infinito, deve ser infinita. Se a supuséssemos limitada em um ponto qualquer, poder-se-ia conceber um ser ainda mais inteligente, capaz de compreender e de fazer o que o outro não faria, e, assim sucessivamente, até o infinito.

•  Deus é eterno.
Deus não teve começo e não terá fim. Se houvesse tido um começo, teria saído do nada; o nada não sendo nada, nada pode produzir; ou bem ele haveria sido criado por um ser anterior e, então, esse ser é que seria Deus. Lhe supondo um começo ou um fim, poder-se-á, pois, conceber um ser tendo existido antes dele, ou podendo existir depois dele, e, assim sucessivamente, até o infinito.

•  Deus é imutável.
Se estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o universo não teriam nenhuma estabilidade.

•  Deus é imaterial.
Sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria; de outro modo, não seria imutável, porque estaria sujeito às transformações da matéria.

•  Deus é todo-poderoso.
Se não tivesse o supremo poder, poder-se ia conceber um ser mais poderoso, e, assim, sucessivamente, até que se encontrasse o ser que nenhum outro poderia superar em poder, e este é que seria Deus.

•  Deus é soberanamente justo e bom.
A sabedoria providencial das leis divinas se revela tanto nas pequenas coisas como nas maiores, e essa sabedoria não permite duvidar-se, nem da sua justiça, nem da sua bondade.
O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de uma qualidade contrária que a diminuiria ou a anularia. Deus não poderia, pois, ser ao mesmo tempo, bom e mau, porque, então, não possuindo nem uma nem outra dessas qualidades no grau supremo, não seria Deus. Não poderia, pois, ser senão infinitamente bom ou infinitamente mau; ora, tendo em vista que suas obras testemunham a sua sabedoria, sua bondade e sua solicitude, é preciso disso concluir que, não podendo ser, ao mesmo tempo, bom e mau sem deixar de ser Deus, Ele deve ser infinitamente bom.

•  Deus é infinitamente perfeito.
É impossível conceber Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, já que se poderia sempre conceber um ser possuindo o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa superá-lo, é preciso que seja infinito em tudo.

•  Deus é único.
A unidade de Deus é a conseqüência do infinito das perfeições. Um outro deus não poderia existir senão com a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas; porque se houvesse, entre eles, a mais leve diferença, um ser seria inferior ao outro, subordinado ao seu poder, e não seria Deus. Se houvesse, entre eles, igualdade absoluta, seria de toda a eternidade um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder; assim, confundidos em sua identidade, não seriam, em realidade, senão um único Deus.

Em resumo, Deus não pode ser Deus senão com a condição de não ser superado, em nada, por outro ser; porque, então, o ser que o superasse, no que quer que seja, não fora senão na espessura de um fio de cabelo, seria o verdadeiro Deus. Por isso, é preciso que seja infinito em todas as coisas.

Deus é, pois, a suprema e soberana inteligência, é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições, e não pode ser outra coisa.

Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, não há de ser verdadeiro senão aquilo que não se desvie um iota das qualidades essenciais da Divindade. A verdadeira religião será aquela na qual nenhum artigo de fé esteja em oposição com essas qualidades, na qual todos os dogmas poderão sofrer a prova desse controle, sem dele receber nenhum prejuízo.

Excertos de A Gênese


Leia também: "Deus existe? Que prova temos?" e "Providência e onisciência divinas: coisas fantasiosas demais para o homem moderno?".

     
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